sexta-feira, 18 de abril de 2008

Alternativo

"Podem ficar tranquilos, que aqui eu levo quantos carteirinhas for necessário, levo os senhores pra onde quiserem. Que a paz de Jesus esteja com todos vocês!"

Foi mais ou menos o que disse hoje um motorista de Lotação em São Vicente para quatro senhores que estavam comigo dentro do carro. Achei impressionante.

Os que convivem comigo sabem o quanto que eu defendo o transporte alternativo da cidade com unhas e dentes. Pros que não, explico que, na minha cidadezinha, não só os ônibus da CET que levam as pessoas de um lado pro outro. São também as peruas, totalmente regularizadas junto à prefeitura e organizadas em uma cooperativa. Têm linhas fixas, e cada bairro tem uma cor correspondente. Circulam parando nos pontos depois que seus passageiros dizem “próximo desce”, ou quando alguém faz sinal. Como a cidade tem bastante gente analfabeta ou que enxerga mal, os cobradores ficam na porta e, pouco antes que o carro pare completamente, abrem-na e anunciam os lugares pelos quais o veículo irá passar. Todos, normalmente, tem na ponta da língua como fazer para chegar em qualquer canto da cidade. Estão sempre uniformizados, e são raramente estúpidos e mal-educados.

A passagem custa R$ 1,85, contra R$ 2,25 de uma municipal em Santos ou na Praia Grande. As intermunicipais são, se não me engano, R$2,60.

A única vantagem que o ônibus tem e a lotação não (tirando a quantidade de pessoas que cabem sentadas e em pé), é que não há limite de idosos para um ônibus. Todos tem o direito de entrar de graça. Na lotação, cada uma tem a obrigação de levar acho que dois “carteirinhas”, como ele chamam. O idoso tem que portar uma carteirinha própria para o transporte alternativo.

Lógico que tem alguns problemas, tipo as vezes em que dois motoristas começam a discutir no sinal em plena avenida, o mal estado dos carros e a maneira abusiva de como os caras conduzem os veículos. Todo mundo fica com raiva deles dirigindo em São Vicente. E aí a raiva é dirigida pra cidade, né? Porque gente pra criticar minha cidade é o que não falta. Mas isso talvez seja assunto pra um outro post.

A questão, aqui, é a bondade do motorista. Ele estava sem cobrador, nunca eu havia visto isso. Era uma perua vermelha, da Vila Margarida. Moderna, um desses últimos modelos que lembra um microônibus e tem até lugar pra ficar em pé (o que eles permitem, apesar de ser proibido.).

Tá, todo mundo sabe que eu num não sou muito fã de igrejas evangélicas em geral. Mas se elas fazem as pessoas ficarem boazinhas desse jeito, poxa! Que a lavagem cerebral continue...

Porque olha só, ele não estava tendo nenhum prejuízo. A perua tem que circular mesmo, que diferença faz quantos velhinhos estão dentro? O horário era tranqüilo, quase não havia passageiros. É bobeira mesmo alguém da cooperativa do cara querer brigar.

Eu podia ter entrevistado, tirado foto, perguntado o nome do senhor simpático. Mas não tive competência o suficiente, e só lhe ofereci o meu sorriso mais simpático na hora de descer, que foi muito, mas muito bem retribuído.

Essas figuras na sociedade devem ser reconhecidas e aplaudidas.

Só queria que a galera descobrisse que amor ao próximo, altruísmo e simpatia não precisam estar acoplados a vida pós-morte, Deus, Jesus, Buda, nem nada do tipo.

Mas aí já é pedir demais, né?

Que as igrejas então continuem incentivando as pessoas a serem mais boazinhas.

E que as não-igrejas também comecem a ter a capacidade de fazer isso sem destruir a capacidade de raciocínio da galera.

Acho que por hoje chega.

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